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Pai

Pai

As vezes me dar uma dor no peito. Um coisa assim, presa. Uma angústia danada. Uma sensação forte de impotência. Queria chorar mais não posso. Não tenho esse direito. (Chora )Desculpa meu filho, desculpa.

Pode até parecer irônico , mas toda uma vida pode caber numa velha e pequena caixa de sapatos. E foi exatamente isso que o velho pai pensava quando lentamente abriu a caixa, sentou no sofá , pós na vitrola um disco de Anísio Silva, e examinava uma a uma cada foto de sua família. Como as coisas passam tão rápida . Pensou. Parece que foi ontem. Parece mais ter sido um sonho. Bem que poderia ter sido outro. E tudo poderia ter dado bem, e bem melhor. Mas agora já foi . Não há mais o que se fazer. O que foi feito. Foi feito. Não há mais o que se fazer. Lembrou de cada filho e suas rápidas passagens pela vida. O primeiro choro de sua filha mais velha, a troca de fralda. Assoprando na palma das mãos um pouco do mingau ainda quente. O primeiro medo do escuro. O primeiro joelho ralado ao cair da bicicleta. E o choro. E o carinho do velho como quem dissesse " Tudo isso vai passar. Não está doendo nada. Vai tudo ficar bem". O velho pai lembrava de tudo isso e chorava. Por um momento, desejou que o tempo parasse. E todos os filhos não crescessem . Ficassem pequenininhos como fora um dia.

Olhe praqui filho, olhe , as vezes a gente sangra. Se esvai de um sangue que a gente não sabe da onde vem isso. E ninguém pode saber disso. As vezes , nem o travesseiro.

Tudo que eu queria e que meus filhos fossem felizes, como eu nunca fui um dia. O que mais espero da vida ? Se não um dia desaparecer ? Você entende isso que falo ?

O filho se conteve,desconversou .

 

 

 

 

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Conto pai

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Raimundo Moura
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(DRT 9922/BA) ator, dramaturgo, produtor. Pós – graduado em Arte Educação, Professor de Teatro(UFBA)

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