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Deus Nada

Deus Nada

   Cansei... cansei de ser Deus. Chega. Nada de ouvir lamentos. Gemidos, Súplicas. Pedidos de socorros. Falsos e inoportunos agradecimentos. Falsos.


O que eu quero mesmo é ser um nada. Talvez até um pensamento bom. Ou ruim.

 

Quem sabe? Quem sabe? Mas sobretudo um nada. 

“Ora, pensei que Deus fosse privilégio meu, mesmo estando dentro de mim.” Já me disseram isso antes. Já me disseram.

Ora bolas... ora bolas...

Eu não sou privilégio de ninguém. E nem de mim mesmo. A troco de quê? Me respondam: a troco de quê? 


Tudo que eu queria agora era puder andar pelas ruas. Ver rostos, cores, sorrisos e brincar de ser coisas completamente insignificantes. Um ruído. Um pensamento bobo. Um espirro. Um espirro, sim. E por que não

Quem sabe talvez uma leve brisa a correr nos campos? A adentrar pelas narinas de um pobre coitado. Um desses que ficam aí nas esquinas a pedir coisas. 


Eu queria ser uma formiguinha. Sim, uma formiguinha. Ou uma nuvem bem alva e bem grande num céu completamente azul. Um azul azulado, sabe? 

Desculpa a redundância.

Eu queria ser um orvalho. Um risco. Ou melhor: dois ou três riscos. Qualquer um desses riscos que ficam numa parede velha

Eu queria ser um brinquedo quebrado sem nenhuma, sem nenhuma serventia. Mas que qualquer criança sabe que tem serventia, sim.

E é por isso ela brinca com aquele brinquedo quebrado. Eu queria ser um riso farto, é. Um riso sem nenhum motivo aparente. Apenas um riso. Um nada qualquer.

Isso mesmo que eu queria ser: um nada qualquer. E só isso. 


Ser Deus cansa. Cansa mesmo.

Eu quero ser o que eu sou de verdade

Um pensamento sem nenhum sentido. Uma ideia apenas. E nada mais.

Confira o vídeo no Canal You Tube

 

 

Literatura

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Raimundo Moura
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(DRT 9922/BA) ator, dramaturgo, produtor. Pós – graduado em Arte Educação, Professor de Teatro(UFBA)

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