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O Caminho da Dor

O Caminho da Dor

Plantei uma dor dentro do meu peito apertado

Assim, bem escondida como em um choro coibido

Eu sei que um sentimento desses nem deveria ser cultivado

Pois é algo tão inútil que não carece ser concebido

 

Nem me dei conta e quando vi, já tinha brotado

Ela era tão miudinha que não achei que iria machucar

Mas a danada fincou no solo e lá criou morada

E esse aperto que escorre nos olhos me faz dela lembrar

 

Chegou uma hora que esse aperreio fez em mim um roçado

Me curvou os ombros, cerrou os olhos e deu um nó na garganta

Agora me fecho de vez pela então voz do silêncio

E, nesse momento, morre qualquer fio de esperança

 

Mas me diga, se são tantos os apegos que habitam em mim

Porque tenho que me abraçar a um sentimentozinho só?

Prosperem logo em mim, euforia e contentamento

E desatem de uma vez do meu corpo esse bendito nó

 

Foi então que percebi que essas estradas em mim são longas

E existem muitas pontes tortuosas e injustas para se cruzar

A dor veio primeiro, foi ligeira e se espalhou depressa

Mas o contentamento, as vezes pode ser vagaroso pra danar

 

Enquanto suporto meu encontro com a solidão

Espero chegar a finda hora dessa dor cansar

A danada é tinhosa e insistente, isso eu bem sei

Mas como as que vieram antes, ela também vai se retirar

 

Já tive dor de saudade, dor de tristeza

Claro, a bendita dor da paixão

Dor também de angústia, dor de desespero

Dor até de alegria. Oxe, e num pode não?

 

Todas vieram e foram, sem dizer oi ou mesmo até logo

Só que dessa vez ela brotou mansinho, na ponta do pé

Acho que vou chamar ela de dor do medo

Daquilo que a gente ainda não sabe o que é

 

Essa dor que sinto está na espera do que não vejo

É um medo revelado em um desalento sem tamanho

Uma agonia arretada e sem rumo no labirinto do sonho

Sonho de tentar me olhar, mas só enxergar um estranho

 

Em cada passo me distancio daquele que um dia fui

E a dor que sinto é o medo do que vem a seguir

Ou de talvez ter deixado tanto para trás

Aquele meu eu que hoje me faria sorrir

 

Mas a gente não volta no tempo e nem caminha para trás

E a cada remorso e desconsolo, a dor se arrasta mais um tiquinho

Então como eu saio dessa peleja e termino essa agonia sem fim?

O jeito é um só: deixa a dor falar. Prosei que vou escutar tudinho

 

Pois agora me escute e entenda bem o meu conselho

A vida lhe faz sorrir e lhe faz chorar, lhe presenteia, mas também cobra

Lembre que quando alguém se alegra com uma chegada

Tem um outro chorando por quem foi embora

 

Ninguém é um só e pro seu desespero existe um alívio

Quando se encontra o perdão, vai se embora a acusação

No instante em que nasce o simples, se exclui o exagero

E para o fim da intolerância existe também a compaixão

 

Se a minha vinda lhe causa angústia e faz ter medo

Crie em você novos caminhos e se permita sentir

Nenhum equilíbrio nasce sem o destempero

E será na minha despedida que chegará um novo existir

 

Eu não parei de ter medo, mas a dor em mim sossegou

Foi num instante de silêncio que reparei na voz que tanto me falou

A dor é sábia como mar e nos transborda de vivências

E letrada como vida, que no seu rigor, nos ensina a ter paciência

 

Saber escutar é a cura para tudo o que faz doer

Então pare de crer que já se tem todas as respostas

E ouça o que a vida em forma de prosa lhe diz

Às vezes é preciso chorar para saber que é feliz

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